02/07/2010

Carlos Pergunta para Alba – na Comunidades Ateus em Curitiba


Você considera a possibilidade de estar errada como atéia? Deus existe, mas não é a concepção que as religiões pregam...


- Carlos querido, que bom que voltou pra comunidade. Vou tentar ser sucinta o que é quase impossível,pois o tema merece toda a abrangência que a  sua complexidade propõe.
- Minha resposta é Não, racionalmente nem por um instante considero que possa estar errada, até os dias de hoje Deus só existe como conceito e ato cognitivo, por isso têm tantos nomes, por isso tanta diversidade de preceitos, dai tantas divindades.

Somos mentais, essencialmente criativos e não dominamos completamente nossa mente, essa falta de controle deve contribuir profundamente no cunho emocional das concepções religiosas,neurológicamente e também narcisicamente tendemos a não suportar espaços vazios e a nossa própria fisiologia existe para vida , a certeza da morte agride ostensivamente esta fisiologia,mesmo que fisicamente sejamos decadentes desde que nascemos.

Imagino que o fato, de tantos Ateus diretores de cinema, artistas, cientistas e filósofos, esteja relacionado à capacidade criativa direcionada a produzir ilusões, esta competência profissional talvez forneça mais força, mais recurso, mais estrutura psíquica para consolidar esta escolha.  Veja que mesmo nesta comunidade, todos são dotados de uma inteligência cognitiva singular e isto funciona como uma vitamina contra crendices.
                                   

2) Como você entende e lida com a morte de alguém próximo (filha, mãe, pai, irmão, marido) ?

Como humana, não posso descartar a possibilidade de diante dum evento extremo, como os que você mencionou,de estar sujeita a alguns momentos de fragilidade incomum e eventual e assim ser acometida pela chamada “fé de desespero”.

Penso que para abrandar uma química psíquica que faz com que seja insuportável o sentimento de dor e por uma reação fisiológica a mente funcione independente e automata, aquém das constatações óbvias da racionalidade. No intuito de não permitir a desintegração psíquica, um mecanismo de escape  catalisa as ilusões e estas partem em busca de subsídios para encontrar amparo, o lugar mais comum estaria nas providencias culturais e religiosas plantadas em nossa memória em nossos primórdios, comuns até na criação de pensamentos delirantes, que serviria como um atenuante instintivo para a impotência diante de situações radicais ou que remetam o pensamento a um torpor ante situações de medo e angustia.

Vale uma analogia: pessoas que tiveram experiência no deserto diante da falta tão vital de água são acometidas por delírios. A mente começa a produzir ilusões de “oásis’ próximos, o que faria com que a pessoa continuasse a caminhar em busca de água, ou se apagar sem implosão, neste caso se trata de um funcionamento para provocar reações também de auto defesa pulsional. Também acredito que o mesmo principio que rege nossa fisiologia rege nossas produções mentais. A meu ver é exatamente neste mecanismo que a crença em um ser superior se acomoda ela tem um fundo fisiológico e se sustenta psicologicamente, porque nossa espécie, parece em sua maioria absoluta ,ser possuidora de uma insustentabilidade estrutural em seu psiquismo. Com isso ouso a conjecturar que não é natural seremos ateus.

Penso que assim como brincávamos de - “faz de conta”- gostamos de ver filmes para nos distrair, de torcer fervorosamente por um time de futebol, de criar fantasias sexuais para tornar o sexo mais intenso e menos mecânico ou simplesmente por diversão, temos um mecanismo parecido diante de demandas psíquicas por demais opressoras. Por ai, poderíamos argüir que a idéia de Deus seria uma distração para a dor bem como também pode ser um lugar de auto-erotismo para masturbar a mente que não quer trabalhar ou não tem recursos cognitivos para abrir mão deste escape.

Eu tive quase todas estas experiências que mencionou, e todas elas fortificaram meu ateísmo. Tenho uma tendência a ser desconfiada e de não aceitar sentenças hipotéticas. Confio mais na duvida do que na certeza. Aprendi que a duvida move mais do que a certeza, acredito que enquanto minha mente for saudável funcionarei assim, mas se existir um Deus ele deve ser Panteista.



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